Aborto é um tema que tenho evitado muito, mas volta e meia surgem argumentos tão assustadores que preciso me manifestar. Dessa vez foi a charge acima, feita por um amigo, João da Silva do Coletivo Miséria, que gerou uma discussão loooooonga e eu, como sempre, me empolguei na argumentação. Enfim taí...
O argumento de que devemos investir em políticas públicas para a formação das mulheres de modo que elas possam “escolher ficar grávidas ou não” é o mesmo absurdo egoísta que usam para negar políticas de ações afirmativas como as cotas. Dizemos às mulheres que estão grávidas contra sua vontade, assim como aos jovens negros e pobres que acabam na criminalidade: “aguardem que, talvez, netos ou bisnetos não precisarão passar por isso”. Será que isso é justo? Será que é o melhro que podemos exigir para amenizar os efeitos nocivos desse sistema cruel que só criou desigualdade e injustiça social?
Mas devemos perguntar o que acontece quando um homem engravida uma mulher “acidentalmente”? A maioria não tem nem mesmo a atitude hipócrita do personagem do João, a maioria “pula fora” totalmente, quantas vezes não ouvimos de um homem, quando perguntado se tem filhos: “Não que eu saiba (risos)”. Porque toda a responsabilidade sobre a reprodução e toda a carga ideológica acrescentada pelo cristianismo e por séculos de machismo devem pesar apenas sobre os ombros das Evas? Até quando continuaremos pagando pelo pecado original? Porque não é permitido também às mulheres “pular fora”?
Ninguém nem mesmo pensa em dar uma resposta a esse tipo de questão, afinal ser mãe é uma bênção divina que deve ser aceita como tal, não como um fardo, ser pai… bem… ser pai é outra história. Somos “pela vida”, eles dizem, e eu sempre me pergunto: pela vida de quem? Quando usamos esse argumento diante dos números assustadores de mulheres que morrem todos os dias em decorrência de complicações ao fazer abortos clandestinos ou quando bons cristãos se negam a atendê-las nos hospitais após fazê-los em casa, estamos agindo como o deputado de Caetano Veloso e Gilberto Gil vendo tanto espírito no feto e nenhum na mulher desesperada e abandonada que não aguentou o peso de ser responsável pelo milagre da vida de outro, vida que gerou sozinha, aparentemente.
Prova do machismo inerente aos argumentos contra a legalização do aborto é o fato de nunca em momento algum ter surgido a possibilidade de discutir a punição também dos genitores, aos “pais”. Então... porque não punir também o genitor que abandonou a mulher à própria sorte? Que tal as mulheres envolvidas na luta pró criminalização do aborto fazerem essa proposta aos homens que compartilham dessa opinião?
