sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Estou fazendo uma experiência de leitura alternando livros de escritores e escritoras brancos e negros. Tal exercício tem rendido reflexões interessantes sobre os temas e grandes questões abordadas nessas obras. Hoje acabei de ler "A redoma de vidro", de Sylvia Plath, romance no qual, em minha leitura, a autora esmiuça o sofrimento psíquico de mulheres brancas, através das experiências e leituras de vida da narradora-protagonista, Esther Greenwood, a qual consegue dar cores fortes, novas e ainda mais inquietantes para temas polêmicos como depressão, suicídio, amor, desejo, desprezo e outros sentimentos/sensações/condições/sofrimentos/"disfunções" humanas.
Porém devo confessar que demorei para me empolgar e perceber a relevância, ainda hoje (sobretudo hoje, embora o livro seja de 1963), desse tipo de história. Foi difícil não cair no discurso que limita o sofrimento apenas a questões materiais, dores físicas e privações de direitos básicos, sobretudo após leituras como "Alegrias da maternidade", "Hibisco roxo", "A cor púrpura", "Ponciá Vicêncio" e tantas outras histórias repletas de um sofrimento tão palpável, tão real. Histórias sobre mulheres torturadas física e psicologicamente, repletas de dores tão profundas e devastadoras que, muitas vezes impediram as personagens até mesmo de sentir, de sofrer. A realidade excruciante do racismo não permite abstrações, não dá espaço para múltiplas interpretações, pretendeu, desde sempre, assassinar o lirismo e a complexidade da personalidade e psique negras. Felizmente a alma humana sangra poesia e hoje temos essas maravilhas literárias para nos consolar e nos lembrar de nossa humanidade.
Portanto, no momento em que estava quase ignorando o sofrimento de Esther e, consequentemente, de muitas mulheres brancas, me lembrei da poesia preta que aquece meu coração e me move pra luta intransigente contra toda e qualquer forma de opressão, a qual, ao contrário do que muitos dizem e pensam, nos faz olhar para as pessoas como pessoas, nos faz querer acabar com o sofrimento do mundo e não mudar a cor de quem sofre, tampouco tentar mensurar a dor não sentida.
Enfim, "A redoma de vidro"...
Desconfio que pessoas incapazes de pensar em suicídio, como eu, sempre tributam o impulso suicida a uma tristeza profunda (carregada de uma boa dose de egoísmo, devo dizer). No caso de Esther creio que o egoísmo e o desprezo pela maioria das pessoas que a cercavam foram determinantes para seu quadro depressivo. A falta de perspectiva de uma vida relevante a apavorava; a mediocridade, tão comum e até desejada por quase todo mundo, era um pesadelo prestes a se tornar realidade, tudo parecia depender do fim da faculdade, de sair da bolha de prêmios e estudos vazios e partir para a mesma vida da qual sempre tentou fugir: a pasmaceira suburbana da mulher do lar, esposa e mãe.
A narradora-protagonista nos coloca dentro do cérebro de uma mulher torturada por uma dor cega, irracional e sem qualquer justificativa aceitável para os padrões capitalistas de sofrimento legítimo, uma dor causada pelo total vazio da vida da mulher  branca suburbana e pretensamente burguesa!
Uma jovem bonita, inteligente, com um futuro promissor, sem fortuna, mas também sem passar por privações sérias, amada (se é que podemos falar em amor nessas relações tão funcionais, quase obrigatórias) pela família, amigos e até com um romance/casamento em potencial. Como entender/aceitar que essa mulher seja tomada por tristeza e desgosto pela vida? Todos os quesitos para a almejada felicidade burguesa foram preenchidos e, ainda assim, ela permanece "dentro da mesma redoma de vidro, asfixiada na própria respiração ácida". 
A lista de conquistas e prazeres da protagonista cegaria qualquer um para a descrição detalhada do vazio de sua própria existência, a ausência de perspectivas de uma vida independente e relevante, a impossibilidade de retribuir o "amor" recebido devido à total falta de admiração e respeito pelas pessoas que o oferecem. A vida em um mundo que exige mulheres independentes, produtivas e fortes, mas ainda submete a felicidade dessas mesmas mulheres a um modelo de família arcaico e opressor pode transformar o seu sucesso, seu corpo, desejos e sonhos em fardos insuportáveis. 
No texto, dentre outras coisas, ficamos diante de um terrível conflito entre os desejos e sonhos de Esther e aquilo que ela precisa desejar e sonhar. Sua incapacidade de conviver tranquilamente com a mediocridade, seu desprezo pelos sonhos pequenos das suas iguais e seu medo paralisante de se tornar, ela mesma, a pessoa medíocre que tanto despreza são alguns dos demônios rondando a mente tão pateticamente fascinante dessa estranha narradora-protagonista.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Moana, ancestralidade, sororidade e força

Foi preciso muitos anos de treinamento para chegarmos à perfeição dos contos de fadas, foi preciso nos voltarmos para civilizações ancestrais, totalmente livres dos desmandos ocidentais, cristãos e burgueses para podermos ver um mundo diferente, uma sociedade, uma sociabilidade e religiosidade menos apegadas a valores capitalistas como a propriedade e a hierarquização marcada pela divisão social do trabalho e de gênero.
A pequena ilha de Motunui estava prestes a receber um novo líder, que seria responsável por guiar o povo e tomar decisões que beneficiassem a todos. Esse grande líder não era melhor do que ninguém na aldeia, não recebia privilégios, além do respeito de todos por aceitar essa grande responsabilidade. Na verdade, esse grande líder era apenas mais uma das muitas peças fundamentais para a sobrevivência da ilha e de seus habitantes e esse novo grande líder era uma mulher. A jovem Moana assumiria essa posição e, ao contrário do que sempre vemos nos desenhos e contos de fadas, não havia maquinações internas, grupos rivais e invejosos da posição assumida por ela, tampouco fazia diferença o fato de ela ser uma mulher. O pai de Moana estava orgulhoso e feliz por passar a liderança para a filha. Esse é o primeiro momento de deleite com o filme: a possibilidade de ver um mundo em que as pessoas são apenas pessoas, em que uma mulher em posição de poder não é ameaçador, tampouco revoltante.
Mas há muito mais beleza nessa linda história. A mulher é exaltada à condição de elo que une a natureza e seu povo, nada daquela visão cristã machista da mulher responsável por manter a família nuclear burguesa unida, mesmo sendo violentada de diferentes formas por seu dono/marido. Nada disso! As mulheres em Motunui mantêm o povo coeso, trazendo de volta sua história, mantendo vivo o legado de seus ancestrais e estabelecendo o diálogo entre o passado, presente e futuro, entre o terreno e o sagrado. A mulher jovem (Moana), a mulher madura (sua mãe), a mulher idosa (sua avó) e a mulher divina (Te Fiji) retomam a importância da ancestralidade, reforçam os elos rompidos pelo medo e pela falta de amor.
Toda a trama se desenvolve em torno do fato de que o coração de uma divindade feminina, chamada Te Fiji, foi roubado por um semideus que queria presentear a humanidade com a capacidade infinita de criação e cura. Mas a ira dessa divindade coloca em risco todo o mundo, pois, aparentemente, uma mulher não é capaz de liderar sem um coração!
Antes que as feministas se levantem e queiram queimar os estúdios Disney, saiba que esse coração, nada tem a ver com a bobagem machista ocidental da mulher “feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor [um homem qualquer] e pra ser só perdão”. Trata-se de um coração ligado à ancestralidade, ao amor pelo seu povo, por seus iguais, pela natureza e tudo que é sagrado no mundo. O filme nos mostra que somente uma mulher é capaz disso, de gerar a vida, mesmo quando está em meio ao caos e sofrimento criado por homens confusos e sem qualquer conhecimento do amor, por ter sido privado dele a vida toda. Mais do que isso, o filme mostra que o amor, materializado na figura feminina, é capaz de restaurar o elo com esse homem, por meio da restauração de seu coração e, desse modo, religar-se à natureza sagrada.
Maui representa esse homem, o típico exemplo do homem não branco, inseguro, carente e perdido, o qual consegue se encontrar a partir da vivência com uma mulher igual que o coloca diante de suas dores e ajuda a encontrar o caminho. Moana enfia o dedo na ferida de Maui, aberta por sua história de abandono e desamor, coberta e bem protegida por um escudo de arrogância, uma ilusão de poder, coincidentemente materializada em um objeto bem fálico, cuja perda representou o fim de toda confiança e autoestima do semideus, menino e ingênuo. A relação de Moana e Maui, se pensada como alegoria da sociedade atual, é um ultimato para que homens não brancos parem de fugir de sua história, se escondendo embaixo da saia de mulheres incapazes de entenderem suas dores ou se iludindo com uma suposta valorização de sua super sexualidade, enfrentem os problemas de seu povo, assumam sua responsabilidade na criação desses problemas e na devastação da alma de suas mulheres/irmãs. 
Equilíbrio, ancestralidade e muito amor é a receita para essa linda história de todas nós!

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Super testosteronas e o golpe de misericórdia na masculinidade

Que a masculinidade é uma coisinha frágil e mal fundamentada, nós já sabemos, mas estamos atingindo níveis alarmantes de retrocesso num processo que deveria ser de amadurecimento. Ultimamente me parece que toda produção artística, cultural ou midiática voltada exclusiva ou centralmente para o gênero masculino é uma releitura capenga do conto de Fitzgerald “O curioso caso de Benjamin Button”. O conto, não o filme, pois no texto a lamentável infantilização do homem, desde a juventude, fica ainda mais evidente e menos romanceada que a versão cinematográfica, que garantiu um pouco mais de brilho para o personagem, ao criar uma personalidade menos alegórica e mais voltada para uma subjetividade, bastante beneficiada pela relação com Daisy (Cate Blanchett). No conto, por outro lado, a personagem feminina é tão genérica quanto a masculina e nem mesmo o ambiente fantástico criado pelo autor é capaz de desviar nossa atenção da lamentável degradação da personalidade masculina em uma sociedade que cultua uma juventude imatura e esvaziada.
Enfim, os homens parecem estar eternamente presos em um ciclo de “degradação reversa”, uma busca desesperada pela eternidade, pela juventude, nem que seja sustentada pela exploração da vitalidade do outro, na verdade, quase sempre “dA outrA”. Como se não bastassem os muitos debates e estudos nas mais diversas áreas do conhecimento para comprovar a iminente crise, a mídia ainda dá uma forcinha para tornar a coisa ainda mais vergonhosa para os machinhos de plantão. Para mim, o golpe de misericórdia foi o tão esperado “Batman vs Superman: a origem da justiça”.
Primeiramente, quero deixar muito bem explicado que não estou comentando a HQ, trata-se de uma leitura unicamente da produção cinematográfica e suas interpretações no contexto atual, portanto, não me julguem! Vendo esse filme percebi o que sempre me incomodava nos filmes do Batman e que adorava nos desenhos, por exemplo, nos filmes ele sempre é o último a saber, ele nunca descobre a trama antes de todo mundo, nunca se antecipa ao vilão. Fico esperando o cara sagaz que supera os super poderes de alienígenas e seres míticos, somente por algo que o torna tão fascinante: sua humanidade...e uma boa dose da fortuna incalculável de seus pais, mas sejamos generosos com o rapaz.
No cinema, o que vemos é sempre o playboy que sofre porque uma vez na vida foi vítima da violência de uma cidade que foi totalmente destruída por pessoas como seus pobres pais super capitalistas de alma boa que doam migalhas, enquanto explora e mata milhões para garantir seu estilo de vida e até os excessos do filhinho de papai justiceiro. Tudo bem que deve ser terrível ver seus pais morrerem, mas a essa altura, esperava mais do que, novamente, reviver o trauma que fez o pobre menino rico lutar por justiça, espancando bandidinhos, mas sem nunca colocar a mãozinha no próprio bolso ou no de outros peixões iguais a ele. Enfim, apesar dos pesares, curto o Batman, mas ficar dois anos curtindo o recalque da meia idade sendo potencializado pela presença do alien novinho e sarado e só conseguir descobrir alguma coisa sobre ele depois de roubar as informações do Lex Luthor teenager e psicótico (destaque para a atuação maravilhosa de Jesse Eisenberg) é um pouco demais pra mim.
Por outro lado, tem o super carente “ninguém me ama, eu não tenho pátria nem amor”, Santo Freud onde está você??? Mais um super que não consegue ver além do próprio super umbigo. Pelo menos Metrópolis é um pouco menos devastada que Gotham e ele é só um trabalhador. além de ter sido criado no interior, debaixo da asinha quente da mami e do papi. A briguinha entre os dois super mimados beira o ridículo: dois homens adultos odiando-se e julgando-se por agirem exatamente da mesma forma. Para a sorte da população masculina, Alfred (Jeremy Irons) é uma voz de sensatez e maturidade em meio ao mar de testosterona do “super eternamente jovem” e do “eternamente jovem de meia idade”. Mesma maturidade presente, como sempre, nas personagens femininas, as mães do filme são a salvação da lavoura, literalmente. Quando falo em mãe, isso evidentemente inclui a pobre da Lois Lane (Amy Adams), responsável por fazer os meninos darem as mãos e ficarem de bem. Depois de um conflito que poderia ter levado à morte de um dos maiores super heróis do mundo, é a lembrança do nome da mamãe que faz o velhinho entender que ele e o alien estavam do mesmo lado. Pronto, conflito superado em 30 segundos e algumas emoções mais que forçadas.
Mas o mais triste para nossos meninos, é ver que até mesmo aquilo em que eles seriam superiores, sua função biologicamente inquestionável e ainda mais legitimada por falarmos de super heróis, a força física, também foi superada pelo feminino. O que seria dos bons e velhos momentos de briga séria (sim, porque aquela lutinha lamentável entre eles não será considerada séria em nenhum universo) sem a chegada triunfal da Mulher Maravilha (Gal Gadot)?!? Enfim, Lois botou ordem na casa, Martha Kent (Diane Lane) foi madura e carinhosa, a Mulher Maravilha brigou mais que todos e até a Martha Wayne foi mais representativa do que nossos pequenos.
O saldo do confronto do século entre os maiores heróis da DC é que, como no mundo, as mulheres ahazam ;)




quarta-feira, 20 de abril de 2016

Bela, Recatada e do Lar: mirem-se no exemplo das nossas mulheres de Atenas...

Quando pensamos que as grandes mídias não podem ser mais desprezíveis, eis que elas se superam...agora foi a vez da Veja mostrar toda a sua originalidade em achincalhar as lutas e conquistas dos movimentos sociais, aproveitando-se do climão Idade Média causado pelo domingo do Golpe e a torrente de nojeira e estupidez proferida por imbecis como Bolsolixo e sua turminha de senhores nostálgicos de seus tempos de Casa Grande e Senzala. Enfim, nossa já conhecida e estimada Veja, se superou e juntou, num mesmo amontoado de palavras vazias e discursos tendenciosos de extremo mal gosto, toda a incoerência e o atraso da lamentável burguesia brasileira.

Para começar, não sei se são capazes de enquadrar aquele lixo em algum gênero jornalístico conhecido, nem sei como alguém com alguma formação tem coragem de assinar aquilo, por isso prefiro chama-lo de falácia, me deixem acreditar que essa pobre coitada dessa Juliana Linhares estava de brincadeira, drogada ou sendo ameaçada pelo Cunha e seus asseclas para escrever aquela coisa. Pois bem, a falácia sobre a “quase primeira-dama”, Marcela Temer, já começa com o apelo descarado e um pouco triste aos delírios de eleitores, ainda deslumbrados pelos brilhos de uma elite a qual nunca pertencerão. A descrição dos restaurantes luxuosos, salões e tratamentos de beleza, além da segurança ostensiva, deveriam ser um desaforo com o contribuinte, mas, aparentemente, só aqueles que, de fato, pensam em políticas voltadas para a promoção da igualdade social é que devem se envergonhar de gastar dinheiro para ter conforto.

Mas não sejamos ingênuos, a patifaria foi importante e representa mais um passo rumo à consolidação do Golpe em curso no momento. Elevar a figura de Michel Temer a grande homem, não seria possível se ele não tivesse uma grande mulher atrás, mas bem atrás mesmo dele. Mas como convencer o povo de que uma novinha com carinha de modelete poderia representar nossa grande nação em que só o Senhor é Deus? Elementar meu caro leitor, vamos justificar sua beleza colocando-a no lugar certo: a serviço dos desejos de seu varão! E foi isso que, desgraçada e desastradamente a senhorita Linhares tentou fazer. Pintou uma criatura vazia, cuja felicidade se resume aos compromissos femininos histórica e biologicamente determinados, esposa e mãe, nada além disso. O diploma de curso superior fica como um trunfo para o marido defender-se das piadinhas sobre a inteligência questionável das caucasianas com pouca pigmentação nos cabelos.

Foi épica a forma como descreveu o tradicional hábito masculino de trocar suas esposas por sangue novo, pele firme e viçosa, afinal, o que eles podem fazer se as mulheres insistem em cometer o grande crime de envelhecer? Talvez Marcela deva agradecer por cedido sua vida sexual a um homem que, embora tenha idade para ser seu avô, esbanja “experiência de vida” para suprir todas as necessidades de sua mulherzinha, afinal uma “mulher pra casar” não precisa de experiênciaS sexuaiS. Como diria nosso amigo Lobato (1920) “Dá a natureza dois momentos divinos à vida da mulher: o momento da boneca — preparatório —, e o momento dos filhos — definitivo. Depois disso, está extinta a mulher.”
A alegoria de subalternidade que nossa Vejinha descreveu é o caminho das pedras para as mulheres que querem ser aceitas e viver o sonho burguês machista do casamento hipócrita e de interesse. Para tanto, você precisa ser uma mulheres que não sonha com postos de comando ou melhor, com lugares sociais masculinos, que têm uma vida sexual comprovadamente NORMAL (leia-se: heterossexual e apenas com as bênçãos da Santa Madre Igreja), ou seja, uma ode à mocinha burguesa “feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor e pra ser só perdão”. Quem tem o mínimo de senso crítico deve ter notado como esse modelo é exatamente o oposto daquele de uma certa mulher que ousou assumir o mais alto cargo de um país, é solteira, já foi presa e torturada por defender ideais de liberdade e igualdade e hoje recebe a represália da machistada, enlouquecida com a possibilidade de perder seus lugares e suas cativas.

Parece familiar?

Definitivamente, tudo é político, tudo é ideológico!

terça-feira, 5 de abril de 2016

Racismo declarado e ao gosto da elite BBB da Unicamp!!!

Agora todos se chocam e se magoam por ver escrito nas paredes de sua amada "Unicambridge" o que está nos corações da maioria dos universitários desse país. Muitos ativistas brancos e empáticos se levantam para mostrar SUA revolta e SUA vontade de mudar essa situação, que fere a TODOS NÓS. Nós quem, cara pálida? 
Já cansei de falar que sua mágoa não significa nada pra nós. Sua dor não importa nem um pouquinho. Isso não é sobre você!!!!!!
Se devemos responsabilizar a Unicamp pelas manifestações de racismo? Evidente que sim! Se devemos cobrar medidas institucionais quanto a isso?? Óbvio!

E devemos e podemos fazer isso, porque NÓS conquistamos o direito de tornar crime o racismo de VOCÊS!!! A conquista é nossa, a luta e a dor também!!!
Diante disso, não podemos deixar de dizer que, se esse tipo de coisa acontece é, em grande parte, responsabilidade do Movimento Estudantil omisso da Unicamp, aliás omisso, misógino e racista! O que tem sido feito para que o debate racial seja pautado de forma qualificada na Unicamp?? Qual a preocupação dos CAs e do DCE em integrar as lutas do MN, INTEGRAR, CONTRIBUIR se articulando aos trabalhadores e organizações locais que querem ocupar o espaço acadêmico com as bandeiras históricas do MN? Qual o interesse de vcs em ouvir, de fato, xs negrxs da Unicamp e região? O que estão fazendo para dar continuidade aos avanços conquistados pela Frente Pró Cotas e pelo NCN???
Venho fazendo essas perguntas desde que eu conheci o debate racial e comecei a ajudar a promovê-lo nessa universidade, mas até hoje, não obtive respostas concretas. Na verdade, mais questões surgem diariamente, por exemplo: qual foi a atitude dos estudantes engajados e progressistas da Unicamp diante da afronta que é a Comvest, além de ignorar as reivindicações por Cotas Raciais em seu vestibular excludente e sujo, ainda ao incluir em sua lista de leitura obrigatória, tão racista e excludente quanto toda a universidade, como literatura africana um livro do autor moçambicano, Mia Couto, coincidentemente loiro e de olhos azuis, mesmo após anos de luta por abertura de espaço para escritorxs negrxs? Onde estava a indignação de vocês quando a mesma Comvest cometeu a afronta máxima às reivindicações do MN, ao incluir também um texto de Monteiro Lobato, aquele mesmo que se declarava, publicamente, eugenista e colocou sua literatura a serviço de um projeto de segregação racial??? E como se não bastasse, o texto em questão (o conto "Negrinha"), ainda vende uma suposta preocupação, por parte do autor, com os negros no pós-abolição.
Provavelmente a maioria de vocês sequer entendem a gravidade desse tipo de atitude para nosso movimento, e não entendem porque não se importam, porque querem ser vanguarda e liderança de todas as causas, achando que suas leituras generalizantes bastam, contemplam e completam toda e qualquer organização e reivindicação. Eu saí da Unicamp há quase dois anos e ainda tem mais estudantes negrxs me procurando para pensar seus processos de construção identitária do que aos grupos que se arrastam por aí numa lutinha constante de egos e possibilidades de cooptação político-partidária. 
Responsabilizar a universidade, sempre!!! Mas sem uma reflexão sobre nossa participação ou ausência dela no debate, nada vai acontecer!!! 

domingo, 3 de abril de 2016

Por que ler literatura negra? Chimamanda e nós!

Sabe aqueles momentos quando você se pergunta: “por que demorei tanto para fazer isso? Por que não conheci isso antes? Isso teria mudado a minha vida!”. Pois é, há tempos não sentia isso...acho que a última vez em que esse sentimento realmente me balançou, foi quando conheci o trabalho de Toni Morrison, um soco no estômago e um carinho na alma por, finalmente, me sentir em casa, conhecida e reconhecida, mesmo que a casa fosse, por vezes, sombria e gelada, havia sempre um cantinho aquecido chamado identidade. Hoje estou me retorcendo e lamentando não poder voltar no tempo para ter conhecido a obra de Chimamanda Ngozi Adichie antes. Na verdade, gostaria que tivesse existido ou chegado até mim, obras como essas na minha adolescência; obras que me retratassem da maneira como gostaria de ser vista: apenas mais um ser humano, cheio de conflitos, contradições, desejos, defeitos e qualidades, sim, ao menos alguma qualidade já seria um pouquinho de saúde, um descanso da loucura de ser sempre tão horrendo e desprezível. 

Foi justamente a possibilidade de fugir dessa loucura, ao menos na ficção, que me causou o primeiro impacto durante a leitura, quando me dei conta, mais uma vez, de como nos deixamos cegar pelo racismo, de como aceitamos as “histórias únicas” como única possibilidade de leitura da realidade. Sua obra nos apresenta lugares complexos e não apenas bons ou maus, sem romancear a realidade, sem pintar um cenário idílico e saudosista de uma África gloriosa de reis e rainhas, nem se prender ao estereótipo do continente vitimado pelo colonialismo branco. Pra começar, ela nos faz o grande favor de não falar de África, mas sim de nigerianos e nigerianas, seres humanos vivendo e se formanda a partir de seus contextos sócio-históricos, por vezes horrendos, mas nunca desprezíveis. 

Pois bem, AINDA não sou a maior conhecedora da obra de Adichie, porém, ao ler “Americanah” e “Hibisco Roxo”, me vi diante de autênticos e maravilhosos exemplos do que considero a melhor invenção da burguesia: o gênero romanesco. A autora desafia o fatalismo dos adoradores de James Joyce e de floreios modernistas, que anunciaram o fim do romance por duvidarem da capacidade humana de criar obras tão herméticas quanto aquelas dos vanguardistas modernos. Afinal, obras muito “acessíveis” jamais teriam o mesmo valor, a não ser que fossem legitimadas pelas limitações de seu momento histórico, haja vista que ainda lemos coisas como “A moreninha”... Segundo esses intelectuais, o romance morreu!
Mas Chimamanda segue em frente e escreve suas narrativas com o sabor de quem apenas deseja contar histórias, de quem tem a sensibilidade necessária para nos mostrar o mundo sob o prisma delicado e sempre inovador do artista. Porém eu não sou apenas uma entusiasta das historinhas, leio com o desejo de buscar prazer, como qualquer leitor, mas minhas apreciações estéticas estão permeadas por minha formação acadêmica. Chimamanda tem uma narrativa bastante objetiva, linguagem direta e uma linearidade que, certamente, incomoda a crítica sedenta por leituras descontínuas e difíceis. Mas isso não significa que o conteúdo de seu texto seja simples, tampouco óbvio. 

A literatura tem exercido diferentes papeis ao longo da história, que vão muito além de, simplesmente, distrair e entreter, dentre essas funções está a consolidação de lugares e valores sociais. Nesse contexto, sua atuação foi fundamental para a consolidação do racismo como parte fundante de nossa formação, pelo apagamento do sujeito negro da produção literária, seja por sua representação sempre pejorativa, animalizada e marginalizada, seja pela exclusão de escritores e escritoras negros e negras do seleto grupo do cânone literário. Impossibilitar a circulação de histórias sobre e contadas por pessoas negras foi determinante para que a história única sobre a inserção do negro no mundo ocidental e mesmo sobre o negro africano, pré e pós colonização, se tornasse a única verdade sobre nós.

O êxtase causado pelas deliciosas descrições de sentimentos, corpos e rostos negros, na obra de Ngozi, só pode nos fazer pensar que são, de fato, genuinamente humanas. Nos obriga a começar a tirar o negro daquele lugar do grotesco e do sórdido no qual estamos acostumados a vê-los, a nos ver. Amor e beleza são as palavras-chave para percorrer esse universo, porém, novamente, não temos os idealismos dos românticos do século XIX, nem o fatalismo de alguns romances modernos e contemporâneos, com suas personagens saudosistas e deprimidas por viverem em um mosaico do foi a perfeição de alguma época que eles não viveram...seja lá o que isso signifique...

Seu trabalho retrata a contemporaneidade, não apenas dos contextos, cenários e temas, mas sobretudo dos sentimentos e das relações afetivas. Tudo é descrito a partir de um compromisso fiel à realidade atual, com um objetivo, quase diabólico, de nos tirar de nossa zona de conforto de pensar que as coisas “são porque são”, e nos colocar em contato/conflito com o fato de que nada mais será como antes! Nossos heróis morreram de overdose, nossos valores estão caducos e nossos relacionamentos falidos. Porém, ainda nos move esse desejo constante de amar, de ter contato, de sofrer um pouco também...porque não? Esse desejo incontrolável e devastador por humanidade! E nós não seremos capazes de fugir dele.

Talvez o romance tenha, de fato, morrido para xs brancxs. Talvez não tenha mais sentido contar e recontar sua própria história. Talvez não valha mais a pena repetir as mentiras sobre a história de outros povos. Mas a nossa história ainda precisa ser contada, desmentida e, até mesmo, romanceada. Nossos heróis precisam ser descobertos, mostrados e criados por mentes cheias de talento e paixão. Porém, agora serão nossas próprias mentes e corpos negros como a noite que contarão as histórias, que desvendarão a verdade e construirão realidades para as quais poderemos fugir quando a realidade doer demais.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Somos todas Lupita!!!


Já consigo ver diminuir o número de meninas negras que rejeitam o próprio corpo, seu rosto, sua pele; já consigo ver o orgulho brotando em nossos corações, a alegria no olhar e a força para desprezar os comentários grosseiros sobre nossos cabelos, narizes e lábios; já consigo ver nosso caráter, já fortalecido pelos anos de chibata, de piadas, de pobreza e de exclusão, se tornando indestrutível, crescendo, invadindo a casa grande e apavorando os senhores; já consigo ver nossa beleza, sem máscaras, sem químicas, sem disfarces; já consigo me ver bela, simplesmente bela; já consigo ver minhas pretinhas, as pequenas que sofrem como eu sofri, deixando tudo isso pra trás, colocando seus narizes largos bem pro alto e olhando o opressor de cima, com toda a altivez de nossas ancestrais rainhas e deusas que passarão a nos inspirar em lugar dos heróis e heroínas que nunca se pareceram conosco, e ainda nos massacraram.
Sonhamos com o dia em que teríamos uma diva negra de nariz largo, lábios grossos e cabelo carapinha; sonhamos com o dia em que nossa beleza seria invejada, admirada e cobiçada; sonhamos com o dia em que nossa beleza destruiria o padrão cruel criado pelo opressor para que nenhuma mulher nunca tivesse autoestima e que as negras permanecessem como animais selvagens e horrendos;
Sonhamos e acordamos Lupita!
Parabéns pra ela e parabéns pra nós que hoje podemos nos ver na mulher mais bonita do mundo.

terça-feira, 9 de julho de 2013

O sonho da princesa



Como mulher negra é difícil não me revoltar com os contos de farsas que nos contaram a vida inteira, principalmente porque nós nunca estávamos lá. Muitos podem pensar que é bobagem, assim como o sonho de ser paquita,  de ter aqueles longos cabelos loiros e o príncipe lindo que, além de amor e nobreza, faria a imensa caridade de clarear a família, salvaria nossos filhos da herança maldita do cabelo ruim, do nariz largo, da boca enorme e vulgar...
Evidentemente que a adolescente deslumbrada com os folhetins e as princesas Disney não tinha consciência de tudo isso, foi preciso me tornar adulta, mulher e negra, a custa de muita pancada da vida, do machismo e do racismo pra perceber a lavagem cerebral. Enfim, o fato é que hoje as mulheres tem perspectivas além do matrimônio, precisam de mais do que somente amor e filhos para se sentirem realizadas. E a mídia, como bons capitalistas, tem entendido essa mudança e oferece, ainda que em doses homeopáticas, novas leituras das mesmas histórias ou histórias novas com conteúdo mais atualizado.
Na verdade são mulheres mais atualizadas. Vejo em alguns contos de fadas recentes possibilidades de pensar a grande questão da mulher moderna: como ser mulher, feminina e romântica e, ao mesmo tempo, independente, com personalidade, sonhos, desejos e vontade própria??
A primeira princesa negra, Tiana de A princesa e o sapo, vem cheia de problemas, além dos cabelos alisados, passa a maior parte do filme como uma charmosa sapinha verde, vivendo aventuras com o príncipe Naveen, jovem fútil e sem maiores objetivos na vida, além de dançar e cantar nas ruas do berço do jazz, Nova Orleans, onde se passa a história, típico do que se espera de um homem negro: um vadio, nobre, rico, porém vadio! Tudo bem que ele não é tão negro assim, mas falaremos sobre isso em outra ocasião... O apagamento ou branqueamento de nossos traços na mídia merece um espaço maior de reflexão. 
O fato é que a força do sonho de Tiana muda o rapaz que, junto de sua mulher negra, reconstrói sua vida, se torna um homem responsável e sério. Tem mais uma coisa, Tiana não é uma princesa de verdade, ela é uma mulher que trabalha e muito para realizar o sonho que aprendeu a sonhar com o pai. Isso poderia ser um problema, pois novamente a nobreza nos é negada. Porém vejo mais como uma amostra do tipo de mulher que somos, mulheres de verdade, com sonhos reais e difíceis de realizar, mulheres que lutam pelo que acreditam, mas também amam e querem ser amadas, também são prendadas e boas donas de casa, boas filhas e, provavelmente, boas mães, mulheres que podem ser vistas em todas as esquinas das periferias pelo mundo afora. 
Não quero ver crianças e jovens negras caindo nos contos de farsas que contam para meninas brancas, não vejo vantagem em acreditar que o casamento é a única forma de ser realizada, que a fragilidade feminina é algo indiscutível e, por isso, precisamos de um príncipe valente que nos salve sempre, pois não podemos viver sem essa proteção. Não quero ver nossas crianças sonhando com uma nobreza que amansa o povo diante das desigualdades, faz casamentos e festas suntuosas enquanto seus criados, aliados nos momentos de luta contra o vilão malvado, estão na cozinha ou vivendo em cabanas humildes, felizes por manter as hierarquias e desigualdades, mas agora com um bonito casal à frente de tudo isso. 
Prefiro que as meninas negras sonhem em ser independentes, em realizar grandes coisas e um dia percebam as injustiças desse mundo e lutem contra elas, percebam porque é tão difícil para algumas e tão fácil para outras, porque Charlotte pode jogar o sonho de Tiana em suas mãos, como se não fosse nada, como quem compra um pirulito e Tiana tem que viver esperando viver mais para continuar sonhando.



sábado, 6 de julho de 2013

Brincadeiras à parte...


Interessante a polêmica... Ironia é um recurso difícil, pois a maioria das pessoas não tem condições de compreender e outras tantas não sabem usar. Entendi os objetivos de Paulo Henrique Amorim, seria uma boa investida, um argumento contundente e ironicamente cortante, como alegou sua advogada. Porém ele desconsiderou algo fundamental em qualquer discurso e ainda mais determinante no caso das ironias: o contexto.
Atacar um reacinha da Rede Globo é sempre agradável e quanto mais humilhado, mais nos regozijamos com a exposição pública de nosso inimigo declarado. Porém Heraldo Pereira não é apenas mais um reacinha, ele também é “negro e de origem humilde”. E PHA escolheu exatamente essas características para atacá-lo, expor sua condição social e racial, como determinante para sua ascensão social e suas limitações políticas.
A afirmação de que um negro que atua sempre em defesa dos interesses da elite branca que, historicamente o oprime, é um “negro de alma branca” seria a melhor escolha de termos, uma vez que ironiza ao mesmo tempo o próprio negro que desconhece/ignora/rejeita/odeia/despreza/teme...  suas origens e a frase célebre largamente usada para elogiar o negro que foge à regra da criminalidade, incompetência, violência, etc típica de seus irmãos, o negro de alma branca, ou seja, o negro honesto, limpo, competente, calmo, etc.
De fato mataria-se dois coelhos com uma cajadada só e o resultado seria uma profusão de risos e alma lavada das sandices do reacinha despolitizado. Porém tal afirmação veio de um representante branco de outro grande meio de comunicação e ser defensor de negros,  cotas e políticas afirmativas não o tira de sua condição privilegiada de homem, branco, heterossexual e rico. Ou seja, um opressor em potencial de qualquer minoria, ainda que tenha escolhido defender esses grupos, sua condição lhe assegura que isso seja feito da maneira que ele achar melhor, pois sua escolha magnânima de “abrir mão de oprimir” para “proteger” o torna totalmente invulnerável. 
Como diria Carlos Moore racismo envolve poder, condições de oprimir, por isso a frase na boca de um outro negro garantiria a ironia e seria altamente politizada, mas na boca de um homem branco e empoderado torna-se uma ofensa desnecessária e baixa contra um negro que, mesmo longe de sua origem humilde, não pode apagar os estigmas eternos de sua cor. No fim das contas foi mais um duelo dos gigantes da TV aberta e venceu o mais forte, mas nesse duelo o povo negro também teve seus louros e não podemos abrir mão disso.

domingo, 2 de junho de 2013

Deu um branco no futebol

Até hoje o jogo de futebol mais triste que já vi tinha sido a partida em que meu Timão jogou sem torcida. Naquele momento entendi porque tantas pessoas não gostam de futebol, não conseguem entender as lágrimas, o desespero, o ódio, a euforia e a felicidade incontida de quem torce e ama seu time do coração. Naquele jogo eu entendi essas pessoas porque esse sentimento foi tirado do campo, a devoção da fiel torcida estava ausente, essa falta não foi compensada nem mesmo pela vitória do corinthians por 2X0.
Mas o de ontem conseguiu colocar esse vazio no chinelo, perto do que o futebol viu acontecer ontem, um jogo com estádio vazio não foi nada. Reinauguração do maior símbolo do futebol nacional, depois do Pelé, o estádio do Maracanã, novo, reformado, hiperfaturado e vendido a preço de banana para o dono do mundo, Eike Batista. Mas não foi apenas nosso maior estádio e orgulho que renasceu ontem, uma tendência antiga, clássica mesmo do futebol também foi retomada e acalentada pela nossa elite lamentável que vai lotar os estádios ultramodernos, ainda que odeiem futebol, e por nossa classe média decadente que vai estourar todos os cartões de crédito em busca de um lugarzinho na corte. A tendência de um futebol para a elite branca!
Sim, o público que lotou o maraca era a cara que a sociedade brasileira sonha em passar para o mundo.  A cara de um povo civilizado, bem comportado, adestrado, branco e rico que se senta e aprecia um espetáculo de raça, sangue, suor e lágrimas – ao menos é isso que os verdadeiros amantes do futebol esperam ver quando vão aos estádios – como quem acompanha uma reportagem instigante do Discovery Channel ou um torneio de tênis animado. O mesmo adestramento que tentam impor em campo, quando criticam o estilo brincalhão dos meninos que driblam e dão o show que imortalizou o futebol brasileiro e o tornou único, a ginga dos meninos do morro, dos pivetes que precisam driblar mais que zagueiros, da meninada que nasceu com a bola nos pés ou na frente da TV vibrando com seus ídolos, aqueles que os “inspira por falta de alguém”, como diria Mano Brown nessa linda parceria com o mestre Jorge Bem, boa sugestão para entrar no clima da paixão pelo futebol.
O futebol e o carnaval são as duas pedras no sapato desse modelo de sociedade perfeita, invenções deles das quais nos apropriamos, melhoramos, mostramos pra eles como se faz e agora eles querem de volta. Há muito tentam nos expulsar dos sambódromos e mesmo das festas de rua. Agora estão nos expulsando dos estádios, como nos expulsaram desde sempre de suas salas de teatro e concertos de música, dita, erudita – mais uma das arrogâncias do estilo branco de fazer arte. Novamente lamento os conservadores, não por nos excluírem, até porque sei que virão buscar nosso samba pra imortalizar na boca de seus playboys rebeldes, nossa capoeira para seus antropólogos generosos, nossa poesia, nossa música, nossa didática...

Lamento porque sei que eles virão muitas vezes, implorando migalhas da nossa paixão pela vida, mas sempre com ares de quem está sendo generoso em aceitar a vida que nunca tiveram e nós temos de sobra. 

Mas não se enganem, está chegando o dia em que fecharemos a porta na cara deles e diremos: fique com a sua erudição repetitiva e nada original, deixe-nos com nosso primitivismo vulgar que vocês amam e sonham poder consumir com a nossa desenvoltura e consciência tranquila, até porque não existe pecado desse lado do Equador, desse lado que ainda está colado em África, que ainda ama, odeia, sofre, grita, fala e ri alto, altíssimo pro mundo inteiro ouvir, sem nenhuma vergonha, culpa ou constrangimento. Isso vocês não vão conseguir patentear, isso não dá pra produzir em plástico com cores lúdicas. Isso é uma questão de vontade de viver e sentir cada emoção como se fosse a última. Podem tentar embranquecer nossa folia, mas sempre que conseguirem voltarão pra buscar mais melanina, mais dessa alegria de viver que vocês nunca tiveram.

sábado, 4 de maio de 2013

Uma tarde



Era uma tarde como outra qualquer, dessas típicas da terra da garoa dos tempos de aquecimento global, sem garoa, mas cinza como chumbo e tão pesada quanto, para as almas de quem passava por aquelas ruas frias. A mim parecia indiferente, desconfio que para a maioria, já estamos mais que adaptados à indiferença, condicionados por ela, dependentes dela, não seria possível sobreviver em uma cidade como essa sem a boa e velha indiferença. Não se trata de desdém ou repulsa, simplesmente não importa...
Não tenho tempo para me importar, tantas coisas mais úteis a fazer... Segui meu caminho apressada; apressada para que mesmo? Não importa... Nada pior no caminho de um paulistano autêntico do que algo estar em seu caminho, nesse dia algo atravessou o meu.
Por sorte não caminhava no momento, mas precisei parar o curso dos meus pensamentos, para sempre.
Aquela mãozinha tão delicada nunca mais saiu da minha mente!
Alguns breves minutos, um percurso entre as estações Santa Cecília e Barra Funda. De onde eu estava, mal podia ver a cabecinha, meio caída sob o peso de entorpecentes e memórias terríveis. Só aqueles dedinhos dedilhando o ar, como tentando tocar algo diáfano e fascinante que flutuava a sua frente e acenava para outros lugares, como num breve momento na Pasárgada dos esquecidos. Aqueles dedinhos encenavam uma dança triste e sombria e me fizeram acompanhá-los.
Mas não estive em Pasárgada, antes vi o pesadelo de uma vida sem sonhos, de uma noite sem fim, tendo apenas o cinza das tardes frias de São Paulo como alento. Então a outra mão me fez entender porque trilhamos caminhos tão diferentes no mesmo espetáculo, ela carregava o sonho flutuante e diáfano em um saquinho plástico.
Meus olhos permaneceram colados àquelas mãos e reconstituem diariamente aquele estranho balé da mãozinha suja das muitas noites nas ruas, dos muitos corres para sobreviver; negras da cor de seus ancestrais que lhe foram tirados, da minha cor, da cor de tantos iguais a ele, iguais a mim, da cor de tantos que virão substituí-lo naquela dança macabra pelo esquecimento.
A indiferença não era mais uma possibilidade para mim.

terça-feira, 12 de março de 2013

Django Freeman??



Depois de assistir Django, além de estar ligeiramente sem alma, confesso que como mulher preta é impossível não ir pra cama com o próprio Django povoando meus sonhos mais íntimos de quem ainda acredita no amor entre homens e mulheres negras. Romances à parte, o filme gera uma mistura de sensações e instintos. Confesso ainda, que o ódio foi o sentimento mais presente em mim ao longo da sessão, não apenas pelo filme, mas também pela reação da plateia. Não pretendo fazer uma crítica ao filme, embora tenha muitas, positivas e negativas, quero apenas desabafar, já que realmente perdi o sono... 

Achei curioso como o personagem mais intrigante e triste de toda a história era o que gerava mais risos e revolta do público. Stephen (Samuel L. Jackson) era a materialização da doença causada pelo racismo, um negro absolutamente ciente se sua superioridade intelectual em relação aos seus senhores, mas que aceitava seu lugar, não com subserviência, mas com orgulho e altivez. Aceitava a posição de “um em 10 mil” que seu senhor tão generosamente concedeu à raça inferior que fez o favor de aceitar sob seu jugo. Stephen é um protótipo, uma experiência bem sucedida do uso eficaz dos grilhões que nos manteria presos e inertes, muito tempo após a abolição. 

Grilhões que carregamos orgulhosos até hoje, sobretudo nós negros intelectuais que “contrariamos a estatística”, superamos todas as amarras e nos sentimos imunes à essa história de privações, sofrimento e inferioridade. Evoluímos, e com isso, deixamos para trás o ancestral atrasado, assim como nossas origens e raizes, para abraçar a história que nos fizeram acreditar ser a melhor, esclareceram nossa mente e nos entrincheiraram em nossos próprios guetos nos matando, acusando e condenando uns aos outros pelo crime de que fomos vítimas, cujos verdadeiros culpados não somos capazes de condenar, pois é exatamente quem queremos ser quando crescermos (se é que algum dia isso vai acontecer). 

No Brasil ainda nos deram a chance de uma descendência mais pura, de um futuro limpo da herança africana. Nos EUA, onde a segregação tem cores bem mais fortes, isso não seria possível, talvez por isso mesmo Stephen não tinha filhos, família ou qualquer outra identificação além de seu senhor, exemplar genuíno da caridade da cristandade branca, ou seja, aquela caridade de quem se compadece dos descendentes malditos de Cam, mas, como bons cristãos, precisam cumprir a profecia. 

Obviamente o que ficou para boa parte do público foi o fato do negro velho e rabugento ter estragado os planos românticos do heroi. E, numa tentativa de leitura crítica, típica de leitores formados pela Veja ou pela Rede Globo, talvez eles tenham conseguido chegar ao velho e conhecido refrão: “os próprios negros são racistas, olha lá... Quem tem culpa?”. 

Para mim, o pior nem é a incapacidade da imensa maioria de enxergar além disso, mas sim eles não perceberem que seus argumentos não diferem nem um pouco dos discursos pseudocientíficos do desprezível Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), ambos não passam de tentativas desesperadas de transformar o maior crime da história da humanidade, o massacre de um continente inteiro, em uma fatalidade provocada pelos próprios massacrados e sua animalidade, ou sua capacidade intelectualidade inferior, sua tendência à servidão, sua ausência de alma, sua tendência ao crime... Enfim, ao longo da história outras justificativas surgirão até que vençamos definitivamente essa guerra.